Segunda-feira, 17 de Julho de 2006

Pasolini - Decameron


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O Decameron/Il Decameron
Realizado por Pier Paolo Pasolini
França/Itália/RFA, 1970 Cor - 111 min.
Com: Franco Citti, Ninetto Davoli, Jovan Jovanovich, Vincenzo Amato, Angela Luce, Giuseppe Zigaina, Gabriella Frankel, Vincenzo Crito, Pier Paolo Pasolini, Giorgio Iovine, Salvatore Bilardo

Um jovem que vai a Nápoles comprar cavalos é enganado duas vezes, mas excrementos podem ser sinal de dinheiro. Um homem passa-se por surdo-mudo num convento cheio de freiras, depois de ouvir contar histórias da sua insaciedade. Um grande pecador, às portas da morte, decide alterar o registo da sua memória no mundo. Uma mulher que engana o marido recorre à porcelana para evitar o flagrante. Três irmãos vingam-se da desonra da irmã. Uma jovem dorme no terraço para poder receber o amante, e para ouvir os rouxinóis. Um padre tenta transformar a mulher do amigo numa égua, a pedido destes. Dois amigos, um deles pecando sem interrupção com a sua comadre, fazem um pacto; o primeiro que morrer volta para contar. A partir de certa altura, intercala-se com a história de um pintor (Pasolini) que procura inspiração para pintar o interior de uma igreja.

«O Decameron» traz-nos uma série de pequenas histórias adaptadas pelo próprio Pasolini da obra de Giovanni Boccaccio. O ritmo só se perde ligeiramente quase no final, mas é compensado pelo remate profundo do pintor, antes das letras "fine". O registo é o de comédia moral anti-clerical. A variedade de contos permite uma lição de moral para cada dia da semana e duas para o fim de semana. Alguns momentos de grande comédia, em redor de um característico género de literatura medieval, que jogava com humor baseado em infidelidades, sexo promíscuo e humor abaixo da cintura, particularmente baseado nos órgãos excretórios humanos e nos respectivos produtos. A obra de Geoffrey Chaucer, "Chanterbury Tales", a segunda a integrar esta trilogia medieval de Pasolini, será outra das obras marcantes do género.

Todo o modus operandi do realizador está patente no filme, nomeadamente o ambiente sujo, a utilização de luz natural e de actores amadores, que parecem escolhidos a dedo pelos seus genuínos rostos e expressões de uma inocência quase surreal. Outra das características marcantes da obra de Pasolini está aqui bem patente: o anti-clericalismo. São as freiras curiosas pelos prazeres do mundo, o frade que usa pretensa feitiçaria para abusar da mulher do amigo, as preocupações com o pecado, nomeadamente se é grave entre compadres (de onde vem a máxima "quem peca uma vez, peca duas ou três", adaptada na modernidade pelos hipermercados com o "pague um, leve três"). Existe ainda o personagem condenado ao Inferno, porque além de ser avaro, seduziu várias mulheres, roubou, faz cobranças coercivas e, como se não bastasse, é "um pouco maricas". Mas quem diria que pode ainda ir para o Paraíso?

Quatro anos antes, Pasolini realizou «O Evangelho Segundo São Mateus»/«Il Vangelo Secondo Matteo», pelo qual recebeu elogios da Igreja, e o qual, infelizmente, passou recentemente numa cópia invisionável na TV2. O realizador terá obstado à tradução americana no título inglês que introduziu o "Saint". Decorre daí que também obstaria ao "São".

«Il Decameron» está em exibição numa cópia em bom estado (supõe-se nova, o projector é que não parece ser) no ACS, em Lisboa. Integrados nesta trilogia, os «Contos de Canterbury» estreiam a 12 de Setembro e «As Mil e uma Noites» a 3 de Outubro. Desejar-se-ia que corressem o país, mas é provável que outras salas da Medeia a exibi-los se localizem apenas no Porto.

Música de Ennio Morricone e Pasolini. Originalmente X-Rated nos EUA.

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publicado por bizantino às 17:51
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Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini

Vida e obra
de Maria Betânia Amoroso


1922 Pasolini da piccolo con la madre - pasolini_07.JPG b/n da 11KbNasce em 5 de março em Bolonha (Italia). Pai, Carlos Alberto Pasolini, militar de carreira: mãe, Susanna, professora do primeiro grau numa cidadezinha do Friuli, Casarsa della Delizia, ao norte da Itália.
1936 Depois de diversas transferências por cidades da Itália setentrional, ingressa na Universidade de Bolonha e inicia seus estudos de literatura italiana, filologia românica e história da arte. Passa suas férias de verão em Casarsa.
1941 Desenha, pinta, participa da fundação das revistas "Eredi" e "Il Setaccio". Publica nas revistas as primeiras poesias em friulano e ensaios de crítica literária
1942 Poesie a Casarsa (poesia)
1944 Dirige a publicação da revista"Stroligut di cà da l'aga".Escreve em friulano o drama I turcs tal Friùl
1945 Pasolini when he was young in his house in Casarsa - pasolini_11.JPG - b/w - 13KbÉ assassinado o irmão Guido que fazia parte da Resistência, por um grupo de resistentes ligados à linha titoísta. Publicação de Poesie (poesia), reunião de poemas em italiano. Inicia L'usignolo della Chiesa Cattolica (poesia). Defende tese sobre o poeta italiano Giovanni Pascoli. Fundação da "Academiuta de lenga furlana"(Academia de lingua friulana)
1946 Se aproxima do PCI (Partido Comunista Italiano) e publica I Pianti (poesia)
1947 Se inscreve ao PCI de Casarsa
1949 Editado o livro em friulano Dov'è la mia patria (poemas). Participa ativamente da seção do PCI de Casarsa. Após denúncia de suspeita de corrupção de menores, é expulso do PCI
1951 Se transfere, junto com a mãe, para Roma. Dá aulas particulares, inicia contatos com poetas e críticos literários (Giorgio Bassani, Libero Bigiaretti, Enrico Falqui, Carlo Emilio Gadda, Sandro Penna).Trabalha na rádio como crítico cultural
1952 É publicado Poesia dialettale del Novecento (poesia), coletânea organizada por Pasolini de poesia dialetal do século XX
1953 Primeiro roteiro cinematográfico: La donna del fiume (com Giorgio Bassani), dirigido por Mario Soldati
1954 Publicação de La meglio gioventù (poesia), poemas escritos em friulano e Dal diario (poesia)
1955 É publicada a coletânea Canzoniere italiano. Antologia della poesia popolare. Novamente com Bassani escreve Il prigioniero della montagna (roteiro). Sai pela editora Garzanti Ragazzi di vita
(narrativa). 
Em maio é publicado o primeiro número de" Officina" (revista literária) que Pasolini dirige junto aos amigos Francesco Leonetti, Roberto Roversi, Gianni Scalia, Franco Fortini e Angelo Romanò
1956 Auxilia Fellini no roteiro de Le notte di Cabiria
1957 Publicado Le ceneri di Gramsci (poesia)
1958 La notte brava (roteiro). Publicado L'usignolo della Chiesa Cattolica(poesia)
1959 Pela Garzanti sai Una vita violenta (narrativa)
1960 É publicado Passione e Ideologia (crítica literária), coletânea de ensaios escritos entre 1948 e 1958 e Roma 1950. Diario (poesia). Escreve La lunga notte del '43 e Il carro armato dell'otto settembre (roteiros). Em setembro estréia, na Bienal de Veneza, seu primeiro filme Accattone
1961 Sai La religione del mio tempo (poesia)
1962 Colabora no roteiro do filme La commare secca (de Bernardo  Bertolucci). Filma Mamma Roma, La ricotta e um dos episódios de RoGoPag (os outros diretores: Rosselini, Godard e Gregoretti). Publica Il sogno di una cosa (narrativa) e L'odore dell'India (narrativa de viagem)
1963 Fim das filmagens de La rabbia e início das de Comizi d'amore. Recolhe material cinematográfico no Oriente Médio - Sopralluoghi in Palestina (filme)
1964

Filma no sul da Itália Il Vangelo secondo Matteo. Publicado Poesia in forma di rosa (poesia)

1965 Assume com Moravia a direção da revista "Nuovi Argomenti". Filmagem de Uccellacci e uccellini. Publicação de Alì dagli occhi azzurri (narrativa)
1966 Escreve seis peças teatrais: Calderón, Pilade, Affabulazione, Porcile, Orgia e Bestia da stile. Filma La terra vista dalla luna
1967 Inicia os trabalhos de Che cosa sono le nuvole? (filme). Edipo re (filme) estréia na Bienal de Cinema de Veneza.
1968 Estréia a peça Orgia dirigida por Pasolini. Appunti per un film sull'India (curta-metragem) é feito para a RAI (radiotelevisão italiana).
Trabalha na elaboração de La sequenza del fiore di carta, episódio do filme Amore e rabbia
Teorema (roteiro) é publicado ao mesmo tempo que estréia o filme.

1969

Filmagem de Porcilee Medea
1970 Inicia as filmagens de "La trilogia della vita", Il Decameron
1971 Trasumanar e organizzar (poesia) é publicado. Inicia filmagens na Inglaterra de I racconti di Canterbury
1972 Publicação de Empirismo eretico (ensaios)
1973 Filma Le mura di Sana'ano deserto do Iêmen. Junto à escritora Dacia Maraini trabalha no roteiro do seu filme Il fiore delle mille e una notte
1975 Filmagem de Salò o le 120 giornate di Sodoma. É publicado La nuova gioventù (poesia), reescritura das poesias de La meglio gioventù. Sai Scritti corsari (ensaios de política) , La divina mimesis (poesia) e Il padre selvaggio (roteiro).



[No dia dos mortos de 1975, o corpo de Pier Paolo Pasolini foi encontrado pela polícia na praia de Ostia. O jovem delinqüente Giuseppe Pelosi assumiu a responsabilidade pelo crime. Vinte anos depots ainda persistem as dúvidas quanto à verdadeira natureza do assassinato. Teria este sido um crime político, uma cilada? Teria Pasolini agredido Pelosi antes de ser massacrado? O que levou Pelosi a assumir a exclusiva responsabilidade pela morte de Pasolini, quando todos os indícios parecem demonstrar que houve participação de terceiros? Por que a justiça italiana não levou a investigação até o fim, contentando-se com a versão de Pelosi? Por que as forças progressistas nãofizeram nenhuma pressão para a reabertura do processo? Não seria a hora de romper, de uma vez por todas, esta conspiração do silêncio? (Luiz Nazário, Membro do Conselho Editorial da Revista de cultura VOZES, é historiador e critico de cinema. Publicou: Pasolini, Orfeu na Sociedade Industrial, 1982, editora Brasiliense

2/11/1975: Pasolini é assassinado em Roma
.
1976 Publicação de Lettere luterane (crônicas políticas)
1978 Publicação de Le belle bandiere (crônicas políticas)
1979 Publicação de Descrizioni di descrizioni (crítica literária) e de Caos (crônica política)
1982 Publicação de Amado mio (narrativa)
1986 Publicação de Lettere (cartas)
1988 Publicação de Il portico della morte (crítica literária)
1991 Publicação de Le regole di un'illusione - I film,il cinema
1992 Publicação de Petrolio
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publicado por bizantino às 17:44
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